Aprender a ler e escrever é considerado, desde 1948, um direito fundamental previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Mais de 75 anos depois, essa conquista segue incompleta em boa parte do mundo, e é por isso que existe o Dia Mundial da Alfabetização, celebrado em 8 de setembro.
Mas o conceito de “saber ler” mudou. Hoje, entender um texto não é mais suficiente para se orientar no mundo: também é preciso entender como um algoritmo decide o que aparece na sua tela, ou como uma ferramenta de inteligência artificial chega a uma resposta.
É sobre essa alfabetização ampliada, da leitura ao letramento digital, que vamos falar hoje. Continue a leitura para saber mais!
De onde vem o Dia Internacional da Alfabetização?
A data tem origem no Congresso Mundial de Ministros da Educação sobre a Erradicação do Analfabetismo, realizado em Teerã em 1965. No ano seguinte, a UNESCO proclamou oficialmente o dia 8 de setembro como Dia Internacional da Alfabetização, durante sua 14ª Conferência Geral, e a data passou a ser celebrada anualmente a partir de 1967.
O objetivo era simples (e permanece atual): lembrar governos e sociedades de que a alfabetização é a base sobre a qual se constroem outros direitos, como o acesso à informação, ao trabalho e à participação na política.
Décadas depois, estima-se que ainda existam cerca de 739 milhões de pessoas adultas no mundo que não conseguem ler ou escrever frases simples, segundo o fact sheet Youth and Adult Literacy 2025, da UNESCO.
Alfabetização no Brasil: qual o cenário atual?
O Brasil vem reduzindo sua taxa de analfabetismo de forma consistente. Em 2025, o país registrou 4,9% de analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais (o equivalente a 8,4 milhões de pessoas), menor índice da série histórica iniciada em 2016, segundo o IBGE.
O problema, porém, é fortemente concentrado por idade e região: pessoas com 60 anos ou mais representam 58% do total de pessoas analfabetas do país, e o Nordeste concentra a maior taxa entre as regiões, com 10,6%, ainda de acordo com o IBGE.
Sem considerar a população idosa, a taxa cai para 2,6% — um retrato de que as novas gerações têm acesso à alfabetização muito mais cedo do que as anteriores.
Alfabetização e letramento: qual a diferença?
Saber decodificar palavras não é o mesmo que saber usar a leitura e a escrita para resolver problemas do cotidiano. Essa diferença tem nome: letramento.
O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) de 2024, estudo coordenado pela Ação Educativa em parceria com Fundação Itaú, Fundação Roberto Marinho, Instituto Unibanco, Unesco e Unicef, mostra que apenas 10% da população brasileira é considerada proficiente em leitura, escrita e matemática.
Isso significa que grande parte de quem “sabe ler” ainda tem dificuldade para interpretar textos mais longos ou fazer cálculos do dia a dia — o chamado analfabetismo funcional.
Pela primeira vez, em 2024, o Inaf também mediu o alfabetismo no contexto digital, e o resultado reforça que essas habilidades caminham juntas: entre as pessoas analfabetas funcionais, apenas 3% apresentam alto desempenho em tarefas digitais, contra 40% entre as alfabetizadas proficientes, segundo o Inaf.
Ou seja: quem tem mais dificuldade com a leitura tradicional também tem mais dificuldade para se orientar no mundo digital.
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Alfabetização digital: o que os dados revelam?
Ainda segundo o Inaf, apenas 25% das pessoas brasileiras entre 15 e 64 anos têm alto desempenho em atividades digitais. A maioria se concentra em um nível intermediário, capaz de realizar tarefas básicas, mas com dificuldade diante de situações mais complexas, como avaliar a confiabilidade de uma informação ou configurar a privacidade de um aplicativo.
O acesso deixou de ser o principal obstáculo: em 2024, 88% das pessoas no Brasil declararam ter usado a internet pelo celular nos três meses anteriores à pesquisa, segundo a TIC Domicílios 2024, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), que avalia o uso das tecnologias de informação nas famílias brasileiras.
O desafio atual não é mais entrar no mundo digital, mas conseguir se mover dentro dele de forma crítica e autônoma.
Letramento de IA: aprender a interpretar antes de usar
Essa lacuna fica ainda mais evidente quando o assunto é inteligência artificial. Uma pesquisa do Observatório Fundação Itaú, em parceria com o Datafolha, mostra que 93% das pessoas no Brasil já usam alguma ferramenta de IA no dia a dia — mas apenas 54% afirmam entender, de fato, o que é IA.
O mesmo levantamento aponta que a compreensão sobre IA cresce junto com a escolaridade e a renda: entre pessoas com ensino superior completo, 47% dizem que a IA está muito presente no seu dia a dia, contra 21% entre quem concluiu apenas o ensino fundamental.
É o mesmo padrão de desigualdade que o Inaf já havia identificado entre alfabetização e letramento digital — agora reproduzido em uma nova camada tecnológica.
Usar uma ferramenta não é o mesmo que compreender como ela funciona, quais dados utiliza ou onde pode errar. É exatamente esse hiato entre uso e compreensão que forma o conceito de letramento de IA: a capacidade de interpretar, questionar e usar essas tecnologias de forma crítica e não apenas operá-las.
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O que muda esse cenário, na prática?
Se usar uma tecnologia não é o mesmo que compreendê-la; reduzir essa lacuna exige mais do que acesso. Na prática, isso significa investir em ações concretas e contínuas, como:
- Linguagem acessível como padrão: comunicar com clareza, sem jargão técnico desnecessário, é uma forma direta de incluir mais pessoas na compreensão de temas complexos, sejam eles tecnológicos ou não.
- Educação continuada dentro das empresas: o aprendizado digital não termina na contratação. Uma formação constante sobre novas ferramentas evita que parte da equipe fique para trás.
- Conteúdo como ponte, não como jargão: explicar o “porquê” por trás de uma tecnologia, e não só o “como usar”, é o que de fato constrói letramento, em vez de apenas ensinar comandos.
- Parcerias com iniciativas educacionais: oferecer às pessoas colaboradoras acesso a plataformas de ensino é uma forma concreta de apoiar a alfabetização digital dentro da própria empresa — na Ecto, por exemplo, isso existe como benefício, com acesso aos cursos da Alura + FIAP para Empresas.
Por que isso importa para a Ecto?
Trabalhamos todos os dias com um material que depende diretamente de alfabetização e letramento: a linguagem. Nosso trabalho é traduzir informação técnica, de SEO, dados, tecnologia, etc., em conteúdo que qualquer pessoa consiga entender e usar.
Isso nos coloca, inevitavelmente, dentro da conversa sobre letramento digital e letramento de IA. Toda vez que simplificamos um conceito complexo em vez de escondê-lo atrás de termos técnicos, estamos fazendo a mesma aposta que motivou a criação do Dia Internacional da Alfabetização: a de que compreender é o que garante autonomia.
Os dados são claros: usar tecnologia não é o mesmo que entendê-la, e essa distância cresce exatamente entre quem menos tem acesso à educação. Acreditamos que empresas de comunicação têm um papel direto em reduzir essa distância.
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